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Avião da FAB quase colidiu com Boeing da Gol, mostra gravação
SÃO PAULO - Um avião da Força Aérea Brasileira
(FAB) quase bateu em um Boeing da Gol, segundo mostra gravação obtida
com exclusividade pelo “Fantástico”. Ela faz parte de um relatório de
perigo com timbre do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes
Aeronáuticos (Cenipa). As aeronaves estavam sobre a Amazônia, uma
região que, para muitos especialistas, tem a pior comunicação aérea do
país.
O piloto do esquadrão grifo - uma equipe de elite da FAB,
com base em Porto Velho (RO) e o instrutor, também da força aérea,
realizavam uma missão de treinamento no comando de um turbo hélice
tucano.
De repente, um susto enorme: bem perto deles, surgiu um Boeing 737 da Gol.
A
reportagem teve acesso a uma gravação de áudio de cinco minutos que
revela mais detalhes sobre o episódio. “O que aconteceu foi que o Gol
passou por cima da gente aqui, quase bateu na gente”, diz trecho da
gravação de áudio de cinco minutos.
Os documentos a que a
reportagem também teve acesso revelam que o incidente ocorreu no dia 18
de junho deste ano, sobre Rio Branco, no Acre.
Depois de
analisar o material, o especialista em segurança aérea Jorge Barros,
que já foi instrutor de vôo em aviões tucano, afirma: foi sorte não ter
acontecido mais uma tragédia na aviação brasileira. “Foi um incidente
muito grave. Houve uma proximidade muito grande, com risco alto de
colisão em vôo”, diz.
De acordo com os documentos, o avião da
Gol fazia o vôo 1938. Este vôo sai diariamente de Cruzeiro do Sul, no
Acre, e faz escalas em Rio Branco, Porto Velho, Manaus, Belém e
Fortaleza.
Perto do aeroporto
O áudio mostra que a
quase colisão aconteceu quando o Boeing e o tucano do esquadrão grifo
se aproximavam do aeroporto de Rio Branco. O mesmo controlador era
responsável pelos dois vôos.
“- Grifo 127, na perna de aproximação.
- está livre o procedimento x-ray. Informe visual com a pista, Grifo 127.
- Grifo 127, chamará.”
De
acordo com a gravação, cerca de um minuto e meio depois, o controlador
autorizou o piloto do Boeing a fazer o mesmo procedimento de
aproximação do aeroporto.
“- informe iniciando a perna de aproximação.
- já está na perna de aproximação, descendo pra 3 mil (pés).
- já está autorizado iniciar o procedimento x-ray.”
O
especialista Jorge Barros explica o procedimento do operador. “Dois
aviões são autorizados para descer pra mesma altitude, fazer a mesma
aproximação pra mesma pista, digamos, no mesmo segmento do espaço
aéreo”.
A cerca de 15 km do aeroporto de Rio Branco, a 450 metros de altura, os pilotos do tucano viram o tamanho do perigo.
A quantidade de palavrões registradas na gravação dá idéia do espanto que tiveram.
“Como
o avião da Gol é a jato e voa muito mais rápido que o avião da FAB, que
é a hélice, é um turbo hélice, então esse avião da Gol se aproxima
muito do avião da força aérea. E passa a 200 pés de altura do avião da
FAB”, diz o especialista. Duzentos pés são pouco mais de 60 metros.
Para
se ter uma idéia de como os aviões passaram perto um do outro, as asas
do Boeing têm cerca de 30 metros. As do tucano, dez.
Logo depois da quase colisão, o instrutor que estava no tucano falou com o controlador.
Ainda
bastante nervoso, o instrutor da FAB passou orientações, como mostra o áudio. “- Rio Branco, Gol pode prosseguir na aproximação final. O que
aconteceu foi que o Gol passou por cima da gente aqui, quase bateu na
gente. Pode prosseguir aí que a gente tá no visual. Tá ok, Rio Branco?
Copiou? "
-"afirmativo, foi copiado, senhor”.
A gravação
mostra que, na seqüência, o instrutor do tucano faz uma pergunta para o
piloto do Boeing. “Gol, confirme. Você entendeu que poderia prosseguir
no ILS?”
No áudio a que tivemos acesso, o piloto da Gol não
responde se entendeu ou não que poderia continuar a aproximação por
instrumentos.
A seqüência final é esta.
“- piiii! que medo!
- Gol 1938 está arremetendo.”
Susto
O
vôo 1938 chega todos os dias ao aeroporto de Rio Branco lotado, com
mais de 180 pessoas. Quem estava no Boeing que quase bateu no avião da
FAB provavelmente não percebeu o perigo. Mas naquele dia, o momento
mais tenso dos passageiros foi quando o jato da Gol arremeteu e teve
que fazer uma nova manobra para aterrisar.
“Cada vez que o
avião passa um susto grande, ele desiste de pousar. Agora, o acaso
esteve presente aí, a ausência de colisão foi mero acaso”. A reportagem
procurou os pilotos que se envolveram neste incidente; os da FAB não
foram localizados.
Por telefone, o piloto do Boeing conversou
com a reportagem. O comandante Carlos Joubert confirmou o incidente,
mas não passou nenhum outro detalhe. Segundo ele, por determinação da
Gol.
“Gostaria muito de colaborar. Agora eu não posso contrariar o que a empresa determinou pra mim”, disse.
Procurada pelo “Fantástico”, a Gol enviou uma nota que também não dá esclarecimentos sobre o incidente.
A
empresa diz que segue os procedimentos de segurança e que os eventos
que mereçam registro são feitos dentro dos padrões estabelecidos pelas
autoridades competentes.
Também em nota, a Aeronáutica informa
que em nenhum momento, houve uma situação crítica de quase colisão.
Mesmo assim, foi feita uma avaliação que concluiu deficiências de
procedimento por parte do controlador de vôo.
“Em verdade o
fato não chega a nos surpreender. Muito pelo contrário". A estrutura de
trabalho é deficiente, diz o advogado da Federação Brasileira dos
Controladores de Vôo.
Segundo ele, há falhas de comunicação e
faltam até equipamentos como radares. Essas alegações fazem parte de
uma ação penal movida há dois meses pela federação contra o comando da
Aeronáutica no Supremo Tribunal Federal (STF).
“Nós queremos
uma auditoria isenta para que apontadas as falhas nós possamos corrigir
e saiamos dessa situação de risco em que vive a sociedade civil
brasileira.
Segundo a Aeronáutica, cerca de 600 novos controladores foram capacitados para o trabalho nos últimos dois anos.
A
aeronáutica informa ainda que na torre de Rio Branco a operação é
coordenada de forma convencional, via rádio, em razão da baixa demanda
de tráfego. Mas afirma que existe cobertura de radar plena para
aeronaves comerciais voando naquela região.
O especialista em
segurança aérea Jorge Barros dá um alerta. Segundo ele, ainda há muito
o que fazer para evitar situações de risco, como aconteceu com o vôo
1938.
"Pura sorte não ter havido um acidente. Por isso é
fundamental que a equipe de controladores seja bem escolhida, bem
treinada e bem equipada, para que ela possa desenvolver um trabalho de
excelente qualidade”.
Leia mais no G1.
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